Rádio Itaí
Livre das atividades radiofônicas por um pequeno período, em janeiro de
1969, passamos a ser assediados pelos então proprietários da rádio Itaí,
fundada uns anos antes por Marino Esperança. Por incrível que pareça seu nome
surgiu de uma brincadeira em uma roda de
amigos em que estava presente o proprietário das águas engarrafadas Itaí;
brincando com o mesmo, Marino comentou
sua luta e afirmou que se concretizado o empreendimento daria a emissora o nome
de Itaí, e realmente assim o fazendo.
Inicialmente com suas instalações na Av.
Borges, no alto de um edifício esquina com Riachuelo, mas na ocasião já instalada
no Edifício do Relógio (Andradas esquina com Gal. Câmara). A intermediação do Dr.
Otelo Frota foi de grande valia, não só pela efetivação definitiva, como pela
valia na regularização junto aos órgãos oficiais. Possuidor de ¾ partes do
Capital Social o Dr. Venâncio Loss Netto, transferiu aos senhores Waldemar
Kuplich, *Breno Futuro e Ulisses Moreira o controle acionário. Harry Kley já
era possuidor de quotas prometidas, promessa de venda aos antigos
proprietários, mas não assumidas. Quando foi desfeita a promessa, permanecendo
como nosso companheiro. As cotas remanescentes do Dr. Cesare Nanni, família
Lopes dos Santos e Brentano foram também adquiridas, para evitar malquerenças e
descontentamentos.
O controle acionário, então já
era nosso. O desmantelamento administrativo, artístico e comercial era
absoluto. Nada funcionava bem, havia em cargo de mando pessoas até mesmo
perigosas para enfrentá-las. Então dei um tempo superior a 10 dias para visitar
as instalações e assumir de fato a
direção. Vistoriando o transmissor e torre de irradiação, sediados em
Sans-Souci (Guaíba) local impróprio, terreno seco e arenoso, o técnico Mário
Campos, ressaltando as deficiências técnicas das instalações, suspendeu um fio
de arame coberto pela areia, servindo pretensamente de sistema refletor e
irradiação. O transmissor, nem merece referência, tal a precariedade, ao lado
estava um de 10 kw encaixotado e pronto para ser instalado em terreno já
adquirido às margens da auto estrada federal PAlegre/Guaíba. Imediatamente
providenciamos sua instalação com a compra de duas torres de quase 100 m, cada
e o respectivo sistema de terra indicado. Uma casa com 02 pisos para a
residência do técnico e no andar superior a instalação do transmissor foi
construída, com proteção especial para provável enchente, comuns neste local.
Curiosamente, devido à construção
da autoestrada, as águas represavam nela e nunca enfrentamos este problema.
Operando a pleno, praticamente, tínhamos cobertura em todo o estado, tal os
requintes de construção empregados. Sediados os estúdios na capital, a ligação
com o transmissor era feita por dois sistemas: linha telefônica e sistema de
irradiação por FM, a primeira a ser concedida em nosso estado. No entanto,
infelizmente não se pode explorar devidamente esta estação, por ainda não
existirem receptores de FM, este transmissor era de ótima qualidade, com
potência de 1kw, usado preferencialmente como linck pelas suas qualidades de
som privilegiadas.
No primeiro contato com o pessoal
dos estúdios uma observação do discotecário chamou a atenção, causando
perplexidade; mostrando um disco long
play com a capa bastante gasta, virou de um lado para o outro, observando
ser aquele disco que o salvava para a programação musical. De fato, a discoteca
estava basicamente com discos antigos e impróprios para passarem em
equipamentos novos. Mandei retirá-los e colocando-os no hall de entrada de
nosso andar, mas ainda levou algum tempo para nos desfazer dos mesmos. A rádio
estava falida em todo o sentido, o departamento de esportes dirigido por um
elemento, não dos mais capazes, nem dos mais relacionáveis. Com algum
relacionamento político, que não eram os nossos considerava-se intocável e com
direitos adquiridos. Este indivíduo incomodou um pouco ao ser dispensado.
O departamento comercial era composto por uma
fauna requintada, desde o pequeno escroque,
um italianinho saindo com nossa entrada e mais tarde retornando pelas mãos de um dos sócios e seu companheiro
de negócios, para entornar toda a harmonia e demolir mesmo tudo, construído com
tanto ideal e solidariedade dos funcionários.
Raciocinando sobre as frustrações
de todos os sadios e louváveis empreendimentos, chegamos à conclusão de ser a
observação bíblica de Cristo verdadeira, quando diz: “o príncipe do mundo é Satanás!”
Permaneceram conosco, ainda por algum tempo elementos
curiosos; um deles em cargo de semi chefia, prensado diariamente por um
cobrador, terminou matando-o com várias facadas na subida da ladeira, rua
fronteira a nossa sede. Ouve também pessoas especiais como Ruy Valandro,
coordenador de vários segmentos, trabalhador, grande amigo e companheiro. Sua
diversificação e capacidade profissionais o levaram a tudo resolver e ajudar a
conduzir. Era o departamento de pessoal, era esportes, departamento de noticias,
em tudo prestigiava e influía.
Na discoteca o Fausto Vieira
emprestou contribuição ímpar. Para enfrentar as tradicionais emissoras tínhamos de inovar
e o fizemos com maestria. No programa Turfe e boa música sob a tutela de
Vergara Marques, direto do Jóquei, irradiando os páreos auxiliado por equipe como Hoffmeister, Sérgio Kuplich e
suplementado nos estúdios com Aurélio Câmara no microfone, na técnica José
Antonio, Morejano e Fausto Veira surgindo com a discoteca os pedidos musicais,
revolucionaram em matéria de audiência.
O pedido musical era feito por
telefone, ficando o mesmo aguardando na linha para solicitar no ar, quando
livre o microfone para tal. Confirmado a solicitação musical, a mesma
previamente selecionada era posta no ar imediatamente. Este pequeno detalhe
causava estupefação no ouvinte e muitos, mesmo profissionais do ramo nunca entenderam a presteza com que esta
solicitação era atendida. Conclusão, um sucesso grande de sintonia pela
originalidade e pela qualidade dos pedidos sempre atualizados pelo bom gosto do
ouvinte solicitador, ainda o melhor programador.
As tentativas em outros esportes
não tiveram maior repercussão. Tínhamos de enfrentar uma Guaíba, uma Gaúcha com
equipes tradicionais e muitos recursos humanos, técnicos e de embasamento
comercial. Romeu Pithan, Paulo Oliveira, Queiroz, João Oliveira, hoje líder em
publicidade emprestaram colaboração inusitada, quer na locução, em noitadas
poéticas, e na redação enfeitando e amenizando as mensagens comerciais. Café da
Tarde, com Silva Filho redator inteligente e culto, tinha público certo e entusiasta. Às seis
horas da tarde o tradicional Ave Maria, programa do saudoso Rubens Alcântara, começava
sempre com a oração de São Francisco, declamada por sua voz inigualável, nos levava ao êxtase
(característica da oração de um dos mais elevados e fortes expressões
espirituais de humanidade).
O espaço da manhã foi explorado
com muita felicidade pelos regionais. As duas equipes de Nelson Souza e Darcy
Reis Nunes conseguiram atuar no mesmo estilo sem repetirem e mantendo uma linha própria de movimentação
artística.
Nos fins de semana eram solicitados pelo interior
tal o sucesso de sintonia. O Nelson gozava de muita popularidade junto ao
público simples, pelo desempenho descontraído e identificado com a música
popular e autêntica dos pagos. Chará e Timbaúva, era a dupla constante em seus
acompanhamentos. Darcy mais circunspecto ia ganhando terreno, procurando suprir sua menor flexibilidade com
o aprimoramento de seus colaboradores.
Dominamos de tal modo a sintonia
neste horário da manhã, especialmente no interior, motivando este fato um
acontecimento político-social de repercussão significativa. Sendo prefeito de
São José no Norte, meu mano Dario Futuro, diga-se de passagem, eleito
praticamente fazendo sua campanha política por nosso microfone, neste horário. O
município de muito difícil acesso e grande extensão, mais o pouco dinheiro,
dificultaram uma campanha direta. Valendo-se da facilidade de enviar suas
mensagens eleitoreiras por nosso veículo de divulgação, colheu os melhores
resultados sendo eleito com grande margem de votos. Sabedor destes fatos, meu
tio Luis Martins, com demais companheiros, pretendendo a emancipação do
distrito de Mostardas e São Simão do município sede, em coordenação com o governador
do estado Hildo Menegheti, também seu correligionário, político, solicitaram-me
empenhamento espaço gracioso neste horário da manhã. O prefeito do município
com o auxilio de Nelson Souza, com muita fibra e disposição fez a defesa da
integração e não desmembramento da área pretendida. Do outro lado no programa
do Darcy, foi feito um movimento intenso e muito bem coordenado, participando
figuras da mais alta expressão política, ligados ao palácio do governo,
empenhados seriamente na emancipação dos referidos distritos.
Realizado o pleito, consagrou-se
a vitória da emancipação, ficando meu tio Luiz Martins sempre muito grato a
força que lhe foi dada. Assumindo como prefeito do município recém criado foi
tão idealista e dedicado, conseguindo armar uma estrutura apenas com doações de
correligionários e amigos, capaz de nivelar com comunas de mais anos de
formação.
A inquietação política tomava
conta do país. Brizola mantinha uma palestra semanal na Farroupilha, que por
determinação de Calmon, então presidente da AGERT e homem forte dos associados,
foi cortada. Ainda mais, houve uma advertência velada, para nenhuma emissora
irradiá-las. Colocamos nosso microfone a disposição do grande político e figura
pública, conseguindo com este procedimento, não só reafirmar nossas convicções
democráticas, como também assegurar uma sintonia quase absoluta no horário das
quintas feiras à noite em que as palestras eram proferidas. Os que o apreciavam
ouviam para receber orientação política e se regojizarem com seus lances
jocosos e corajosos; e os que não o toleravam para ouvirem os ditos de desagrado à ordem pretendida tradicional.
Culminou este episódio com a
tentativa de impedimento da posse constitucional de Jango na presidência da república,
vitoriosa a sua escalada à presidência com o movimento desencadeado por Brizola
a frente sua condução nos microfones de rádios requisitada para tal.
Nossa posição no IBOPE era ótima
em quase todos os horários.
Elementos desagregadores, falsos
e inconvenientes infiltrados no setor comercial, por um sócio secundário,
começaram a sabotar o faturamento. Sentimos a manobra e procuramos adquirir o
controle acionário, contando com as ações em nome do Kley, conseguimos. Para
surpresa nossa estes elementos participavam de uma agência de publicidade com o
Kley. Pressentindo o perigo, apelaram para nossos fraternos sentimentos e
tolamente cedemos 10%, a título gracioso, para a esposa do indivíduo mais
ardiloso. Esta manobra é óbvio, nos privou novamente do controle acionário. O
Kuplich com 40% de participação foi aliciado para o outro lado, mediante
destaques especiais dados aos seus dois filhos, um na técnica e o outro na
programação geral. Estes tipos depois que se impõem um objetivo, não descansam,
mancomunados com nosso representante comercial em São Paulo, começaram nova
investida, intuindo não ser crível e nem viável a condução dos negócios por
nosso grupo regionalizado, passaram a relatar negócios perdidos e por perder,
acenando com dificuldades e contratempos insuperáveis.
Junto aos companheiros um
ambiente de desconfiança e desagrado era alimentado. Cansado de lutar
praticamente só, e não pretendendo atritar mais com antigos companheiros que
tinham outros interesses imediatos em jogo, concordei em transferir minhas
quotas. Foi armada a farsa da transferência para o testa de ferro,
representante comercial em São Paulo. Nesse meio tempo o infeliz faleceu e
tiveram de abrir o jogo, transferindo as quotas prometidas vender, para a
mulher do italianinho Lydia Gabellini,
casada em comunhão de bens, sentindo-se seguros, não hesitaram em despedir
prontamente os 02 filhos de Kuplich, até então em cargos de mando e relevo. Foi
uma estupidez e um golpe sórdido e infeliz. Cada um dá realmente o que tem, não sendo de estranhar tal
procedimento.
Os Kuplichs, sentindo-se traídos,
vieram a mim assegurando-me a maioria necessária para questionar a transação
prometida, tornada irregular e ilegal, por implicar vinculação com estrangeiros,
vedado especificamente por nossas leis e
pela constituição. Entramos em juízo para anulação da promessa de venda,
simultaneamente cassando procuração outorgada para os mesmos gerirem a rádio
neste período de transição. Para se defenderem, contrataram um advogado local,
hábil e prático nestes assuntos semi-oficiais. Ajuizada a questão foi decidido
favoravelmente a nós, com longos e brilhantes pareceres sobre a
inconstitucionalidade e infração as leis vigentes.
A solução encontrada pelos
questionados foi conseguir a interferência de pessoas ligadas ao mundo oficial e o fizeram na pessoa do Gal Brasil e
um Lopes dos Santos, parente dos familiares que tão respeitosamente havíamos
tratado quando na aquisição das quotas pertencentes a família. Transferiram aos
02 elementos mais 40% e a um ou outro elemento chegado aos mesmos, o suficiente, caracterizando não serem os
detentores da organização, o pedido de transferência levado oficialmente a Brasília
pelo mesmo, sendo prontamente referendado pelo Presidente da República, seu
colega de armas e conterrâneo. Houve justificativa para esta pronta regularização,
contrariando despacho e julgamento da
justiça comum.
Havíamos nos tornado pessoas não
gratas ao poder concedente e a presença do Gal Brasil como quotista e
presidente da rádio, assegurava uma confiável administração, embora neófito
neste ramo de atividade. Em caso de morte do cônjuge adquirente, para evitar
uma transferência impossível, o canal seria cancelado.
Estes são os fatores documentados e inclusive
divulgados pela imprensa por iniciativa deles. Alterada a situação política o
dito idealizador desta coisa toda, tratou de repassar a rádio para um grupo de
religiosos, alheios aos nossos costumes e tradições, nesta altura já
desvinculados dos antigos parceiros e protetores.
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