RÁDIO GAÚCHA

Um Pouco da História Antes da Potência Atual 

(Breno Futuro)



Rádio Gaúcha

Com a deflagração da segunda guerra mundial em setembro de 39 o nosso panorama radiofônico iria se modificar um pouco. A rádio Gaúcha já com mentalidade mais comercial havia sido transferida para a Rua Sete de Setembro, quase esquina Gal. Câmara, sendo seus maiores interessados Chico Garcia e Breno Caldas. O prédio de construção antiga e um andar albergava a rádio em instalações precárias. O transmissor sediado no Cristal em um acanhado terreno também estava com tudo obsoleto.


Com a continuação da guerra foram se criando e agravando dificuldades para as firmas de eletrodomésticos. Praticamente tudo era importado, principalmente peças importantes de reposição. As dificuldades começaram a se fazer sentir para a manutenção dos aparelhos vendidos. As oficinas de manutenção Coates e Casa Victor tinham problemas semelhantes. Para sobrevivência e bom andamento foi proposto pelo seu Pizoli ao Chico Garcia uma negociação em que seria permutado o controle acionário da Casa Coates pelo controle da Rádio Gaúcha. Prevalecendo os interesses comerciais de sobrevivência e como no fundo, seu Chico guardava certa mágoa pela prevalência comercial do Frigidaire sobre o refrigerador vendido por sua firma – Kelvinator – concordou com a transação. Conversando comigo em certa ocasião, embora tendo as duas marcas sob sua tutela observou-me “que o Kelvinator era melhor que o Frigidaire.”


Regularizada a transferência de quotas Coates/Gaúcha, com o assessoramento jurídico do professor Ernani Estrela foi aumentado o capital social da empresa viabilizando a execução de obras inadiáveis nos estúdios e transmissores. O controle acionário foi assegurado e o desenvolvimento da rádio se fez rapidamente, tanto pela seriedade da programação como pelo fortalecimento da parte comercial. A tarefa era dupla com as duas emissoras a serem cuidadas. Para atrair ouvintes sem conflitar com a outra emissora, movimentação nova precisava ser criada. Foi criada uma cobertura esportiva ampla e abrangente. No comando Amaro Júnior tradicional cronista esportivo da Caldas Júnior. *O homem não tinha dicção nem voz radiofônica, originando atritos continuados com a direção por insistir em ocupar o microfone.


Nos campos de Foot-ball Farid Germano comandava a equipe com invulgar brilhantismo. Oduval Cozzi maior locutor esportivo veio especialmente contratado do Rio, aumentando o prestígio das irradiações esportivas. Destaque especial foi dado ao rádio teatro inaugurando um ciclo de grandes escritores do Rio e São Paulo. Atuaram expoentes como Claudio Real, Pepê Hornes Carlos Nobre, Walmor Chagas, Walter ferreira, Pery Borges, Stelita Bell, Serrão Vieira, Cândido Norberto, Tânia Maria Lydia Ilzuck, etc. Lauro Rodrigues e seus companheiros conduziram com muito êxito os programas regionais. Marino Esperança desenvolveu uma programação inovada sobre os bairros com grande sucesso comercial e de sintonia. Posteriormente, não aceitando a chefia de um diretor afastou-se e terminou fundando a rádio Itaí.


O estímulo da direção geral para conquistar espaços comerciais esbarrava sempre no problema da concorrência entre duas coirmãs. Existiam só três emissoras, como a Farroupilha com canal exclusivo de 50 kw para toda a América do Sul, foi montada originalmente em Uruguaiana, para combater mais de perto a preocupante penetração em nosso território das estações portenhas, não encontrando lá ambiente comercial de sustentação, transferiu-se para Porto Alegre.


 Aumento de potência era difícil ou quase impossível, com a mentalidade existente nos meios oficiais. Investir mais na parte artística? Qual seriam os resultados positivos se o público ouvinte estava limitado pela potência de irradiação? Solução vislumbrada por Pizoli: vender as duas emissoras e comprar a Farroupilha. O faturamento da Difusora era muito expressivo. Segundo me falou Carlos G Krebs, então locutor, informando ter sido, conforme reportagem de uma revista especializada, o maior faturamento em rádio na América do Sul naquele ano.

 Neste período, começa a surgir no Brasil o fenônemo Assis Châteaubriant em jornalismo e comunicações. O homem era brilhante e muito influente nos meios oficiais, conseguia tudo: financiamentos, facilidades comerciais, influências políticas. O nosso relacionamento com os associados era dos mais saudáveis. Em um desentendimento havido com um de seus mais brilhantes cronistas e de muita ascendência política Augusto de Carvalho, com seu gerente de redação, o digno e grande jornalista professor Ernesto Correa; procurada a Gaúcha para um desagravo público não foi o mesmo autorizado, por no entender da direção ferir princípios éticos de empresas afins. 
Meus trabalhos de pesquisa e divulgação profissional, embora ditos pelo microfone, sempre tiveram da parte do saudoso amigo Ernesto Corrêa, autorização para serem publicados: lançamento e sugestão para o tratamento das águas de bebidas pelo Flúor para prevenção das cáries dentárias e outros inúmeros trabalhos de orientação sobre saúde dentária.


O Diário de Notícias sempre foi um jornal aberto a divulgação de campanhas de interesse popular. Seu dirigente maior e porta voz de Châteaubriant aqui em nossa cidade era o senhor Freire, deslumbrado e consciente dos grandes feitos de seu superior, sabedor da possibilidade de venda da rádio Difusora, procurou seu Pizoli e como os dois eram de decidir logo, acertaram em princípio, a transação. Na saída, encontrou com seu Balvé dirigente supremo da Farroupilha e ufano o Freire relatou o acontecido, antegozando as possibilidades maiores de influência dos associados no Sul do país. Seu Balvé temeroso de que este fato iria significar, em matéria de concorrência comercial, prontamente acenou com maior vantagem que teria sido adquirir a Farroupilha. Então vislumbrada esta possibilidade de compra e ainda em melhores condições, o Freire retornou ao seu Pizoli, relatando o acontecido e, se não haveria embaraço para o desfazimento do combinado. Desta forma, o negócio cavalheirescamente foi desfeito e seu Pizoli ainda brincou; dizendo que em pouco tempo mais voltariam ao assunto e por um preço muito mais elevado.


Assumida a Farroupilha, o faturamento foi dobrado, logo no primeiro mês. Empolgados com este resultado comercial o raciocínio lógico  foi de incompetência e incapacidade comercial. Chegada a festa de aniversário da Difusora, o Freire foi o convidado especial, e entre as brincadeiras e gozações surgiu o assunto da compra. Como para os associados não existia embaraço, foi acenada uma proposta muito superior. O Freire não se intimidou e encorajado pelos resultados favoráveis da exploração da outra compra confirmou a transação. O Dr Ruy Figueira, o mais célebre repórter Esso do Brasil e de muita capacidade de corretagem foi designado para dirigi-la, e não foi uma fácil missão.


 As possibilidades de ampliação comercial já vinham sendo conduzidas ao máximo, e provavelmente o problema de concorrência entre as duas coirmãs se fez sentir. Levaram anos em plano secundário, sempre perdendo dinheiro, terminando por entregá-la aos padres Capuchinhos. Nesta nova fase a emissora teve altos e baixos, chegando aos padres em seus planos de expansão, montar uma televisão com o mesmo nome de Difusora, partindo para a compra de emissoras no Rio e em São Paulo. No entanto, ao final, desmoronou tudo e a rede terminou caindo nas mãos da rede Bandeirantes, gente estranha ao nosso meio.


A safra ou faturamento extra, que compensavam o andamento normal, sempre apertado, surgia quando das campanhas políticas; Uma das derradeiras campanhas que empolgou o Brasil foi a da última eleição do Dr. Getúlio Vargas à presidência da República. Gerenciava a rádio Gaúcha o Sr. Arnaldo Balvé, que por ou não possuir temperamento comercial agressivo, era pessoa mais afeita à administração e ao setor artístico (quando de seu mandato na Farroupilha, muitas vezes participava de programas especiais de rádio teatro), ou por descuido no trato com os políticos para conseguir verbas, o resultado financeiro não foi o esperado. Concomitantemente montou uma rede de emissoras no interior do estado, restando até hoje algumas destas emissoras em mãos de seus familiares.


Como seu Pizoli vinha sendo muito absorvido pela montagem da maior câmera frigorífica do estado (na Indústria Brasileira do Peixe), para contornar as dificuldades, colocou a frente do departamento comercial Sr. Harry Kley, seu futuro genro, egresso do banco de Londres, não possuía nesta atividade nenhuma experiência. Portanto, enfrentou dificuldades e  problemas sérios, mas finalmente com a vinda do Rui Figueira para auxiliá-lo, os resultados alcançados ficaram em melhores condições.


Fugindo da tradicional caixinha com textos bitolados e de leitura rotineira começaram a surgir programas de uma, duas ou mais horas em que o corretor esquematizava a programação do espaço, vendia a publicidade, sendo praticamente o vendedor absoluto. Um dos primeiros programas deste tipo e com ótima repercussão foi organizado por Marino Esperança. Posteriormente se desentendendo com a direção comercial se demitiu. No entanto, havia sido inoculado pelo “germe” da radiofonia e enquanto não conseguiu uma emissora não descansou, resultando desta inquietação a fundação da Rádio Itaí.


Em outubro de 1949 faleceu Pizoli, sendo nomeados diretores seus três genros: Harry Kley no comercial; Eu, Breno Futuro* na técnica e artístico; Marino F Kurtz na administração e contabilidade. A situação econômica e financeira era muito boa e permitiu uma série de inovações que se faziam necessárias. Troca de transmissor no Cristal, onde estava instalado precariamente para um local mais adequado e que possibilitasse sinal mais forte. Escolhemos uma área regular no Sarandi, o acesso era difícil, mas com o auxilio do então prefeito de Porto Alegre, Dr. Ildo Meneghetti, foi aberta uma estrada especial que possibilitou o assentamento posterior de grande núcleo populacional.


Na aprovação do terreno para esta finalidade, surgiram alguns embaraços objetados pelo senhor Ruben Berta, condutor supremo da VARIG, extremamente zeloso e preocupado com    assuntos ligados a segurança de vôo. Muito influente no mundo político e administrativo do país, não foi fácil vencer suas objeções. Estávamos dentro das Normas Técnicas e tínhamos também algum relacionamento, tornando-se finalmente, pacífica a instalação das torres no local escolhido.


 Mais tarde iríamos enfrentar o mesmo tipo de problema na instalação das torres da rádio Itaí, junto a estrada que passa por Guaíba, sob a alegação de se projetarem na cabeceira de uma das pistas de pouso. Neste caso, devido a sua localização, passou a ser uma referência para o pouso de aviões em certas circunstâncias. Uma singularidade que marcou e nos envaidecia quando ouvíamos de algum aviador, esta observação.


Quando das primeiras modificações feitas no transmissor da Gaúcha, ainda sediada no Cristal, seu Pizoli se socorreu do Sr. Erny Peixoto, então o mais recomendado para tal. Assessorado pelo Dr. Homero Simon, eram os dois integrados aos serviços de manutenção técnica da Varig. Por desentendimentos havidos, o Sr Erny deixou de fazer as modificações e manutenção do transmissor da rádio. Seu Pizoli para não ficar sem ninguém observou a situação criada e como solução foi indicado o Dr. Homero para continuar a tarefa, e com nosso ingresso 
na diretoria terminamos absorvendo-o totalmente para nós.

Construída oficina especializada foi desenvolvido um esquema de manutenção e ampliação de equipamentos. Chegava a ser engraçado ver aquele homem genial atualizando o transmissor. Não parava de tirar peças do mesmo, simplificando-o atualizando-o e o tornando mais eficiente. Quando numa de nossas viagens ao Rio para a compra de equipamentos técnicos, comentando o fato com a diretora da RCA, contaram que antes do advento das ondas médias, eram as ondas longas e para o Brasil vieram três transmissores desta freqüência. Destes só um foi desencaixotado e seu tamanho era comparável ao de uma sala apreciável. Veja-se como evoluímos!


As instalações comerciais e dos estúdios precisavam de grandes modificações e adaptações ao progresso e exigências de funcionamento. Então foi providenciado novo local, o edifício União, no centro da cidade em frente à Prefeitura Municipal, que estava em fase de acabamento e num dos últimos andares fizemos nossas instalações. Inovamos em tudo, a programação assim exigia; rádio, teatro, esportes, departamento de notícias, programação ao vivo com orquestra e regionais, sala de redação, departamento comercial, de publicidade e de pessoal, auditório e etc.


Para a feitura do auditório com palco adaptável a qualquer situação exigida; como detalhes acústicos e de iluminação foram considerados, Até ao porteiro consultamos sobre problemas de bilheteria e acesso. O problema de acústica era sério, por estarmos confinados em um prédio cuja estrutura não tinha sido construída para este desempenho. 

A sala de rádio teatro era interna e nela precisamos fazer malabarismos para evitar problemas de acústica e reverberações do som. Então Dr. Homero optou pela feitura de um estúdio com superfície policilíndrica, o primeiro a ser construído no Brasil com êxito absoluto.


Em nossa peregrinação para ver se existia alguma coisa no gênero, encontramos na rádio Record de São Paulo, uma instalação de estúdio que havia sido abandonada por inoperante. Interpretaram denominação policilíndrica como se as paredes laterais devessem ser meias colunas de concreto esculpidas nas diversas paredes de cima a baixo. Com o fracasso deste estúdio procuraram nos demover de tal realização. Os tratamentos de som com fins acústicos, em recintos fechados até então eram feitos na base do abafamento com cortinas pesadas, solucionando em parte, para as notas agudas, mas deixando de reproduzir as graves.


O empreendimento era ousado, o idealizador e responsável não se intimidou, executou como o planejado e terminou se consagrando como um dos maiores especialistas brasileiros em todos os assuntos ligados a comunicações. A execução das obras do estúdio requereu mão de obra especializada. As caixas de alimentação de som em toda extensão das paredes foram construídas como armações de som usadas nos diversos instrumentos de corda: violão, violino, baixo, etc. para alimentarem e sustentarem as diversas tonalidades de notas graves e agudas. Alternavam estas superfícies policilíndricas placas de celotex acústico (Eucatex) para complementar o jogo de som necessário ao equilíbrio acústico.


O resultado dos estúdios em funcionamento foi um sucesso, contando com grandes expressões artísticas de grande repercussão, sendo algumas novelas gravadas para outras Praças. A sonoplastia e técnica estavam sob a supervisão dos irmãos Krebs (Alcides e José). As exigências da qualidade da programação motivaram a compra da primeira gravadora RCA em disco de acetato.


Dirigia o departamento de Redação Luiz Gualdi, talentoso e modesto profissional. O departamento de notícias algum tempo com Mário de Lacerda, tomou novo impulso com a inclusão de Mendes Ribeiro (Jorge Alberto). Rejeitado pelo rádio teatro, o encaminhamos para este setor, que estava acéfalo, e o resultado foi este que presenciamos; de um jornalista de projeção nacional e internacional, projetando-se na política com grande força eleitoral e de credibilidade.


Para nós todo este êxito foi motivo de orgulho e satisfação, por ter sido por sua querida e saudosa  mãe, dona Alice Ribeiro, minha cliente dedicada e amiga. Num  de seus atendimentos profissionais solicitou com muita convicção que incluísse o seu rapaz(filho) em nossa programação, por ser este seu desejo. Bendita solicitação e atendimento!


Os programas musicais eram acompanhados pela orquestra Ernani Marino, um dominando o pistão no saxofone, dois gentlemen no trato. Esta orquestra permitiu grandes movimentações artísticas como a inauguração  das novas instalações que uma dezena de artistas de maior renome nacional: Orlando Silva , Francisco Alves , Emilinha Borba , Marlene , Dircinha  Batista , Quatro Ases e um Coringa , Edu da Gaita , etc.


Registro fotográfico no livro a Música que Embalou o Rádio/2003

 A festa de encerramento da programação inicial foi  feita no Auditório  Araujo Viana (localizado aonde está a assembléia) e tal foi seu sucesso em presença de povo e agrado geral que a prorrogamos, contando com a pronta colaboração das autoridades municipais, fornecendo condução (bondes) por mais duas horas , além do horário normal.


Os programas regionais estavam sob o comando do saudoso Lauro Rodrigues, coordenando artistas como Luiz Menezes, Manoel Cardoso, grande repentista e trovador. Locução e animação de auditório, Rubens Alcântara, Adroaldo Guerra, Rezende, etc.

A parte esportiva foi dado especial realce, irradiando-se sistematicamente todos os jogos importantes, em qualquer parte do mundo em que se realizassem, sendo de interesse popular. 

Após muitas conversas intermediadas por Harry Kley e Vergara Marques, conseguiu-se  autorização do Jóquei  Clube   para suas corridas serem irradiadas, até então tarefa impossível. Provamos ser motivo de interesse mútuo pela divulgação e conseqüentemente mais volumes de apostas.  Deu certo, até hoje esse serviço funciona em várias emissoras. Foi um dos nossos pontos altos com Vegara conduzido uma equipe com locutores especializados como  Hoffmeister,  Macedo, vários auxiliares de informação e equipe técnica especializada, possibilitando um entrosamento perfeito com os estúdios.

Foto no livro A Música que Embalou o Rádio (2003)

 Macedo terminou se afastando para fundar junto com Petrônio e Mafuz a MPM  uma das principais agências de publicidade de nosso território nacional.


Supervisionava toda programação artística Cândido Norberto, mantinha  no horário noturno um comentário  diário  “pensando em voz alta” com grande sintonia. No dia  subseqüente, os comentários de rua sempre se referiam ao que havia sido dito.Tal popularidade e a repetição constante   de seu nome nas chamadas de programação ensejaram a sua eleição para deputar por um partido PSB , de pouco eleitorado , sendo possível sua diplomação após eleição suplementar , pois nem votos para o partido conseguiu.


Registro do livro A Música que embalou o Rádio
Foi um triunfo para todos que militavam na rádio, pois provamos com esta eleição que tínhamos poder de influenciar e decisão em pleitos eleitorais. Cândido iniciou o ciclo dos homens ligados aos veículos de comunicação se elegeram em função do poder de penetração das mensagens por eles dirigidas. Hoje ficou até mesmo engraçado, pois é tal  o eleitorado que arrastam , pela disparidade da  divulgação de seus nomes , quanto o dos políticos de profissão que têm seus nomes tolhidos pelos regularmente eleitos.


Este embasamento técnico e artístico exigiu muito do departamento comercial.  O Kley se socorreu do auxilio de Ruy Figueira, personalidade impar, considerando sua popularidade por ter sido o melhor repórter Esso Brasil, como pelas condições que reunia para fazer  chegar a resultado concreto, as visitas comercias aos mais  variados  tipos de clientes . O Kley fazia o ambiente com suas piadas e verve especial e o Ruy ultimava o contrato. Lances curiosos  lembro: quando a Brahma adquiriu o controle acionário  da nossa cervejaria Continental , firma que não admitia anunciar , os espaços esportivos e todas as irradiações de football , de qualquer local aonde decidíssemos ir  tinha cobertura  comercial  assegurada. O impacto publicitário foi tão eficiente que pedir uma cerveja generalizou sob denominação de Brahma.

A propósito da mentalidade de muitos industriais e comerciantes  de então ocorreu com  A.J.  Renner. Procurado por nossos diretores comercias para patrocinar grande artista internacional Georges Boulanger; não só  se negou a patrocinar tal empreendimento , como ainda pretendeu cobrar uma taxa para o artista se exibir em seu restaurante e casa de chá , recém inaugurados. A resposta de Kley, que mantinha com ele relação de família e pela colônia Alemã foi pronta e contundente: “seu Jacob , agora o senhor nos fala assim , mas no decorrer do tempo sua firma ainda será uma das maiores anunciantes!”  E o foi realmente.  

 A mentalidade foi mudando, criaram–se muitas agências de publicidade, as Praças do Rio e principalmente de São Paulo ocuparam grandes espaços dos veículos de maiores anunciantes, maiores exigências quanto ao alcance da Emissora.


Passou a nos preocupar o aumento de potência para alcançarmos maior cobertura de irradiação no Estado. As leis internacionais de rádio difusão eram severas e observadas. Por “cochilo” do Brasil em congressos internacionais de rádio difusão vínhamos perdendo espaços por não reinvidicá-los. Os países vizinhos expandiam e conseguiam novas concessões para as quais não tinham necessidade e nem condições de utilizá-las, como foi o caso do Paraguai negociando canais exclusivos (rádio Eldorado) cedido a grupos brasileiros.


O Dr. Arregui, nosso amigo e conselheiro tentou no Uruguai, junto com o Kley, por interferência do embaixador Batista Luzardo acordos para concederem aumento de potência em nosso transmissor. Uma estação deles na mesma freqüência se negava a conceder autorização para tal. Todos os esforços foram inúteis, tínhamos de nos conformar e permanecer como estávamos.


A influência das rádios portenhas aumentava sempre mais e mais. Não possuíamos nem ondas curtas para amenizar esta situação. A liberação de novas concessões no Brasil, estava estagnada, praticamente na mão de um homem só; o célebre Dr Brandão, mentalidade tacanha e superada, era um empecilho permanente. Os canais em onda dirigida, utilizando freqüências já em funcionamento por outras estações, não era ainda uma realidade.


O Dr. Homero desbravou, sendo no Brasil o pioneiro nestes estudos e realizações, com a instalação da Rádio Guaíba, na freqüência de um canal exclusivo sediado em Pernambuco.De uma ida ao Rio, encontrei por acaso o proprietário da dita emissora e, quando relatei o que se pretendia fazer aqui no Sul, se indignou e não admitiu que tal ocorresse. Mas aconteceu e hoje é lugar comum.

 Sem possibilidade de aumentar a potência do transmissor, sem vislumbrar a concessão de novos canais auxiliares, em ondas curtas, estávamos num impasse. Com as perspectivas de expansão frustradas o entusiasmo foi esmorecendo. E a família começou a se desinteressar pelo negócio.


Como tinha esperança de encontrar caminhos novos, procurei investidores para comprar as quotas dos demais sócios e com influência bastante  junto ao mundo oficial, para abrir campo novo de  operações. Foi-me oferecido crédito especial para particularmente efetivar a transação. Os planos eram grandiosos e preferi a inclusão dos elementos em conversação. Erro meu, embora com todo o acesso ao “mundo oficial”, o esquema não funcionou; só tive dissabores e a rádio degringolou completamente.


Junto ao mundo oficial a inclusão destes novos sócios foi um verdadeiro “abre-te Sésamo”, tudo se tornou fácil. Os serviços de concessão  e fiscalização de rádio, antes em uma das salas do Ministério das Comunicações, antes concentrado nas mãos de um homem retrógrado e desatualizado, foi deslocado para uma das salas do Palácio do Catete, tal sua importância política e social e conduzido por  pessoa capaz, atualizada e com bons propósitos. Tratava-se do Cel. Almir, que muito marcou no governo de Getúlio Vargas. Encaminhado a ele prontamente, dados as justas e corretas ponderações, encontrou saída para nossa solicitação, autorizando o aumento de potencia pretendido (10 kw), colocando também a nossa disposição três freqüências em ondas curtas, possibilitando cobertura eficiente para todo nosso território.

 Na minha volta a Porto Alegre, o Dr. Homero entendeu ser conveniente mais uma freqüência, sendo nisto também atendido. Infelizmente, dado a inoperância dos elementos associados, terminamos perdendo quase todas as freqüências concedidas, por não terem sido aproveitadas no tempo hábil. Um dos objetivos na transmissão estudada era a participação ativa do quadro de funcionários. Traindo este acordo, ouve um desestímulo para os funcionários pretendentes. 

Junto com a má administração e o desinteresse, criado pelos colaboradores desestimulados em seus nobres anseios, os negócios e andamento normal da emissora, embora "bafejado" por caravanas semanais vindas do Rio graciosamente, cedidos pela rádio Nacional, num gesto fraternal e de apoio, o índice de sintonia foi caindo, a parte comercial se desorganizando culminando numa insolvência total.


Tentei readquirir o controle acionário, mas não houve entendimento por terem cogitado rendimento extra na transferência das quotas, o que era inadmissível. Os problemas foram se agravando, os títulos da aquisição estavam vencidos e sem perspectivas de serem resgatados; urgia uma solução imediata. Quando no desespero foi procurado pelo responsável direto da dívida, para assumi-la, sem qualquer ônus, além do devido, conversei com meus companheiros, mas era tal o desmantelamento de tudo que não se sentiram encorajados.


Comunicado o nosso desinteresse ao Dr. Arregui, advogado das partes, foi procurado o Sr. Arnaldo Balvé, que relutou em assumir o negócio, mas estimulado por Maurício Sobrinho, participante em 25 % na compra aceitaram o compromisso. Seu Balvé, que já vinha meio adoentado,  teve a preocupação em levar tudo a bom termo, que talvez, por isto seu estado de saúde se agravou, terminando por falecer pouco depois.


Empossados seus herdeiros, acredito tenham tido êxito inicial, pois logo após o governo Goulart, montaram e fizeram funcionar o canal 12, TV Gaúcha. No decorrer do funcionamento devem ter surgido problemas maiores, pois numa das ausências de Maurício ao Rio, por motivo de saúde, foi-lhe comunicado por telefone que a parte da Balvé filho,  havia sido efetivada a transação com um grupo de São Paulo, ligados a rede Excelsior, o  aconselhando a fazer o mesmo. Portanto, ele não aceitou a sugestão, mas se submeteu ao mando dos adquirentes, permanecendo no Rio a disposição. 

 Este grupo comercial que assumiu, começou a se atrapalhar nos negócios, e apelaram para a sonegação de impostos, especialmente os que incidiam sobre cigarros, um dos ramos de atividade, sob alegação de impostos indevidos. Informado destes detalhes, por um amigo, que atuava como fiscal federal contra os mesmos acrescentou esperar nesta próxima investida liquidar com o conglomerado todo, por ter o homem forte que os protegia sido afastado.


Alertei o Maurício sobre o fato, insinuando desfazer e desvincular a rádio e televisão, deste grupo decadente. As previsões se concretizaram, os negócios daquela gente desmoronaram inclusive a TV Excelsior. Com habilidade foi evitado o envolvimento das emissoras daqui, Maurício retornou exitoso e quando o encontrei exclamou satisfeito e ufano; “que ninguém mais as tirariam de si e seus filhos.” 

Parabéns Maurício! Neste negócio te conduziste como um gigante. Posteriormente, ouve dificuldades superadas graças ao esforço da família, seu pai e irmão Jaime, tendo hoje o Rio Grande do Sul este patrimônio todo; a RBS, orgulho de nosso estado. 


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