RÁDIO GAÚCHA
Um Pouco da História Antes da Potência Atual
(Breno Futuro)
Rádio Gaúcha
Com a deflagração da segunda guerra mundial em setembro de 39 o nosso panorama radiofônico iria se modificar um pouco. A rádio Gaúcha já com mentalidade mais comercial havia sido transferida para a Rua Sete de Setembro, quase esquina Gal. Câmara, sendo seus maiores interessados Chico Garcia e Breno Caldas. O prédio de construção antiga e um andar albergava a rádio em instalações precárias. O transmissor sediado no Cristal em um acanhado terreno também estava com tudo obsoleto.
Com a continuação da guerra foram
se criando e agravando dificuldades para as firmas de eletrodomésticos.
Praticamente tudo era importado, principalmente peças importantes de reposição.
As dificuldades começaram a se fazer sentir para a manutenção dos aparelhos
vendidos. As oficinas de manutenção Coates e Casa Victor tinham problemas
semelhantes. Para sobrevivência e bom andamento foi proposto pelo seu Pizoli ao
Chico Garcia uma negociação em que seria permutado o controle acionário da Casa
Coates pelo controle da Rádio Gaúcha. Prevalecendo os interesses comerciais de
sobrevivência e como no fundo, seu Chico guardava certa mágoa pela prevalência
comercial do Frigidaire sobre o refrigerador vendido por sua firma – Kelvinator
– concordou com a transação. Conversando comigo em certa ocasião, embora tendo
as duas marcas sob sua tutela observou-me “que
o Kelvinator era melhor que o Frigidaire.”
Regularizada a transferência de
quotas Coates/Gaúcha, com o assessoramento jurídico do professor Ernani Estrela
foi aumentado o capital social da empresa viabilizando a execução de obras
inadiáveis nos estúdios e transmissores. O controle acionário foi assegurado e
o desenvolvimento da rádio se fez rapidamente, tanto pela seriedade da
programação como pelo fortalecimento da parte comercial. A tarefa era dupla com
as duas emissoras a serem cuidadas. Para atrair ouvintes sem conflitar com a
outra emissora, movimentação nova precisava ser criada. Foi criada uma
cobertura esportiva ampla e abrangente. No comando Amaro Júnior tradicional
cronista esportivo da Caldas Júnior. *O homem não tinha dicção nem voz
radiofônica, originando atritos continuados com a direção por insistir em
ocupar o microfone.
Nos campos de Foot-ball Farid
Germano comandava a equipe com invulgar brilhantismo. Oduval Cozzi maior
locutor esportivo veio especialmente contratado do Rio, aumentando o prestígio
das irradiações esportivas. Destaque especial foi dado ao rádio teatro
inaugurando um ciclo de grandes escritores do Rio e São Paulo. Atuaram expoentes
como Claudio Real, Pepê Hornes Carlos Nobre, Walmor Chagas, Walter ferreira,
Pery Borges, Stelita Bell, Serrão Vieira, Cândido Norberto, Tânia Maria Lydia
Ilzuck, etc. Lauro Rodrigues e seus companheiros conduziram com muito êxito os
programas regionais. Marino Esperança desenvolveu uma programação inovada sobre
os bairros com grande sucesso comercial e de sintonia. Posteriormente, não
aceitando a chefia de um diretor afastou-se e terminou fundando a rádio Itaí.
O estímulo da direção geral para
conquistar espaços comerciais esbarrava sempre no problema da concorrência
entre duas coirmãs. Existiam só três emissoras, como a Farroupilha com canal
exclusivo de 50 kw para toda a América do Sul, foi montada originalmente em
Uruguaiana, para combater mais de perto a preocupante penetração em nosso
território das estações portenhas, não encontrando lá ambiente comercial de
sustentação, transferiu-se para Porto Alegre.
Aumento de potência era difícil ou quase
impossível, com a mentalidade existente nos meios oficiais. Investir mais na
parte artística? Qual seriam os resultados positivos se o público ouvinte
estava limitado pela potência de irradiação? Solução vislumbrada por Pizoli:
vender as duas emissoras e comprar a Farroupilha. O faturamento da Difusora era
muito expressivo. Segundo me falou Carlos G Krebs, então locutor, informando
ter sido, conforme reportagem de uma revista especializada, o maior faturamento
em rádio na América do Sul naquele ano.
Neste período, começa a surgir no
Brasil o fenônemo Assis Châteaubriant em jornalismo e comunicações. O homem era
brilhante e muito influente nos meios oficiais, conseguia tudo: financiamentos,
facilidades comerciais, influências políticas. O nosso relacionamento com os
associados era dos mais saudáveis. Em um desentendimento havido com um de seus
mais brilhantes cronistas e de muita ascendência política Augusto de Carvalho,
com seu gerente de redação, o digno e grande jornalista professor Ernesto
Correa; procurada a Gaúcha para um desagravo público não foi o mesmo
autorizado, por no entender da direção ferir princípios éticos de empresas
afins.
Meus trabalhos de pesquisa e
divulgação profissional, embora ditos pelo microfone, sempre tiveram da parte
do saudoso amigo Ernesto Corrêa, autorização para serem publicados: lançamento
e sugestão para o tratamento das águas de bebidas pelo Flúor para prevenção das
cáries dentárias e outros inúmeros trabalhos de orientação sobre saúde
dentária.
O Diário de Notícias sempre foi
um jornal aberto a divulgação de campanhas de interesse popular. Seu dirigente
maior e porta voz de Châteaubriant aqui em nossa cidade era o senhor Freire,
deslumbrado e consciente dos grandes feitos de seu superior, sabedor da
possibilidade de venda da rádio Difusora, procurou seu Pizoli e como os dois
eram de decidir logo, acertaram em princípio, a transação. Na saída, encontrou
com seu Balvé dirigente supremo da Farroupilha e ufano o Freire relatou o
acontecido, antegozando as possibilidades maiores de influência dos associados
no Sul do país. Seu Balvé temeroso de que este fato iria significar, em matéria
de concorrência comercial, prontamente acenou com maior vantagem que teria sido
adquirir a Farroupilha. Então vislumbrada esta possibilidade de compra e ainda
em melhores condições, o Freire retornou ao seu Pizoli, relatando o acontecido
e, se não haveria embaraço para o desfazimento do combinado. Desta forma, o
negócio cavalheirescamente foi desfeito e seu Pizoli ainda brincou; dizendo que
em pouco tempo mais voltariam ao assunto e por um preço muito mais elevado.
Assumida a Farroupilha, o
faturamento foi dobrado, logo no primeiro mês. Empolgados com este resultado
comercial o raciocínio lógico foi de
incompetência e incapacidade comercial. Chegada a festa de aniversário da
Difusora, o Freire foi o convidado especial, e entre as brincadeiras e gozações
surgiu o assunto da compra. Como para os associados não existia embaraço, foi acenada
uma proposta muito superior. O Freire não se intimidou e encorajado pelos resultados
favoráveis da exploração da outra compra confirmou a transação. O Dr Ruy
Figueira, o mais célebre repórter Esso do Brasil e de muita capacidade de
corretagem foi designado para dirigi-la, e não foi uma fácil missão.
As possibilidades de ampliação comercial já
vinham sendo conduzidas ao máximo, e provavelmente o problema de concorrência
entre as duas coirmãs se fez sentir. Levaram anos em plano secundário, sempre
perdendo dinheiro, terminando por entregá-la aos padres Capuchinhos. Nesta nova
fase a emissora teve altos e baixos, chegando aos padres em seus planos de
expansão, montar uma televisão com o mesmo nome de Difusora, partindo para a
compra de emissoras no Rio e em São Paulo. No entanto, ao final, desmoronou
tudo e a rede terminou caindo nas mãos da rede Bandeirantes, gente estranha ao
nosso meio.
A safra ou faturamento extra, que
compensavam o andamento normal, sempre apertado, surgia quando das campanhas
políticas; Uma das derradeiras campanhas que empolgou o Brasil foi a da última
eleição do Dr. Getúlio Vargas à presidência da República. Gerenciava a rádio
Gaúcha o Sr. Arnaldo Balvé, que por ou não possuir temperamento comercial
agressivo, era pessoa mais afeita à administração e ao setor artístico (quando
de seu mandato na Farroupilha, muitas vezes participava de programas especiais
de rádio teatro), ou por descuido no trato com os políticos para conseguir
verbas, o resultado financeiro não foi o esperado. Concomitantemente montou uma
rede de emissoras no interior do estado, restando até hoje algumas destas
emissoras em mãos de seus familiares.
Como seu Pizoli vinha sendo muito
absorvido pela montagem da maior câmera frigorífica do estado (na Indústria
Brasileira do Peixe), para contornar as dificuldades, colocou a frente do
departamento comercial Sr. Harry Kley, seu futuro genro, egresso do banco de
Londres, não possuía nesta atividade nenhuma experiência. Portanto, enfrentou dificuldades
e problemas sérios, mas finalmente com a
vinda do Rui Figueira para auxiliá-lo, os resultados alcançados ficaram em
melhores condições.
Fugindo da tradicional caixinha
com textos bitolados e de leitura rotineira começaram a surgir programas de
uma, duas ou mais horas em que o corretor esquematizava a programação do
espaço, vendia a publicidade, sendo praticamente o vendedor absoluto. Um dos
primeiros programas deste tipo e com ótima repercussão foi organizado por
Marino Esperança. Posteriormente se desentendendo com a direção comercial se
demitiu. No entanto, havia sido inoculado pelo “germe” da radiofonia e enquanto
não conseguiu uma emissora não descansou, resultando desta inquietação a
fundação da Rádio Itaí.
Em outubro de 1949 faleceu Pizoli,
sendo nomeados diretores seus três genros: Harry Kley no comercial; Eu, Breno
Futuro* na técnica e artístico; Marino F Kurtz na administração e
contabilidade. A situação econômica e financeira era muito boa e permitiu uma
série de inovações que se faziam necessárias. Troca de transmissor no Cristal,
onde estava instalado precariamente para um local mais adequado e que
possibilitasse sinal mais forte. Escolhemos uma área regular no Sarandi, o
acesso era difícil, mas com o auxilio do então prefeito de Porto Alegre, Dr.
Ildo Meneghetti, foi aberta uma estrada especial que possibilitou o
assentamento posterior de grande núcleo populacional.
Na aprovação do terreno para esta
finalidade, surgiram alguns embaraços objetados pelo senhor Ruben Berta,
condutor supremo da VARIG, extremamente zeloso e preocupado com assuntos ligados a segurança de vôo. Muito
influente no mundo político e administrativo do país, não foi fácil vencer suas
objeções. Estávamos dentro das Normas Técnicas e tínhamos também algum relacionamento,
tornando-se finalmente, pacífica a instalação das torres no local escolhido.
Mais tarde iríamos enfrentar o mesmo tipo de
problema na instalação das torres da rádio Itaí, junto a estrada que passa por
Guaíba, sob a alegação de se projetarem na cabeceira de uma das pistas de
pouso. Neste caso, devido a sua localização, passou a ser uma referência para o
pouso de aviões em certas circunstâncias. Uma singularidade que marcou e nos
envaidecia quando ouvíamos de algum aviador, esta observação.
Quando das primeiras modificações
feitas no transmissor da Gaúcha, ainda sediada no Cristal, seu Pizoli se
socorreu do Sr. Erny Peixoto, então o mais recomendado para tal. Assessorado
pelo Dr. Homero Simon, eram os dois integrados aos serviços de manutenção técnica
da Varig. Por desentendimentos havidos, o Sr Erny deixou de fazer as
modificações e manutenção do transmissor da rádio. Seu Pizoli para não ficar
sem ninguém observou a situação criada e como solução foi indicado o Dr. Homero
para continuar a tarefa, e com nosso ingresso na diretoria terminamos
absorvendo-o totalmente para nós.
Construída oficina especializada foi desenvolvido um esquema de manutenção e ampliação de equipamentos. Chegava a ser engraçado ver aquele homem genial atualizando o transmissor. Não parava de tirar peças do mesmo, simplificando-o atualizando-o e o tornando mais eficiente. Quando numa de nossas viagens ao Rio para a compra de equipamentos técnicos, comentando o fato com a diretora da RCA, contaram que antes do advento das ondas médias, eram as ondas longas e para o Brasil vieram três transmissores desta freqüência. Destes só um foi desencaixotado e seu tamanho era comparável ao de uma sala apreciável. Veja-se como evoluímos!
As instalações comerciais e dos
estúdios precisavam de grandes modificações e adaptações ao progresso e
exigências de funcionamento. Então foi providenciado novo local, o edifício
União, no centro da cidade em frente à Prefeitura Municipal, que estava em fase
de acabamento e num dos últimos andares fizemos nossas instalações. Inovamos em tudo, a programação
assim exigia; rádio, teatro, esportes, departamento de notícias, programação ao
vivo com orquestra e regionais, sala de redação, departamento comercial, de
publicidade e de pessoal, auditório e etc.
Para a feitura do auditório com
palco adaptável a qualquer situação exigida; como detalhes acústicos e de
iluminação foram considerados, Até ao porteiro consultamos sobre problemas de
bilheteria e acesso. O problema de acústica era sério, por estarmos confinados
em um prédio cuja estrutura não tinha sido construída para este desempenho.
A sala de rádio teatro era interna e nela precisamos fazer malabarismos para evitar problemas de acústica e reverberações do som. Então Dr. Homero optou pela feitura de um estúdio com superfície policilíndrica, o primeiro a ser construído no Brasil com êxito absoluto.
Em nossa peregrinação para ver se
existia alguma coisa no gênero, encontramos na rádio Record de São Paulo, uma
instalação de estúdio que havia sido abandonada por inoperante. Interpretaram denominação
policilíndrica como se as paredes laterais devessem ser meias colunas de
concreto esculpidas nas diversas paredes de cima a baixo. Com o fracasso deste
estúdio procuraram nos demover de tal realização. Os tratamentos de som com
fins acústicos, em recintos fechados até então eram feitos na base do
abafamento com cortinas pesadas, solucionando em parte, para as notas agudas,
mas deixando de reproduzir as graves.
O empreendimento era ousado, o
idealizador e responsável não se intimidou, executou como o planejado e
terminou se consagrando como um dos maiores especialistas brasileiros em todos
os assuntos ligados a comunicações. A execução das obras do estúdio requereu
mão de obra especializada. As caixas de alimentação de som em toda extensão das
paredes foram construídas como armações de som usadas nos diversos instrumentos
de corda: violão, violino, baixo, etc. para alimentarem e sustentarem as
diversas tonalidades de notas graves e agudas. Alternavam estas superfícies policilíndricas
placas de celotex acústico (Eucatex) para complementar o jogo de som necessário
ao equilíbrio acústico.
O resultado dos estúdios em
funcionamento foi um sucesso, contando com grandes expressões artísticas de
grande repercussão, sendo algumas novelas gravadas para outras Praças. A
sonoplastia e técnica estavam sob a supervisão dos irmãos Krebs (Alcides e
José). As exigências da qualidade da programação motivaram a compra da primeira
gravadora RCA em disco de acetato.
Dirigia o departamento de Redação
Luiz Gualdi, talentoso e modesto profissional. O departamento de notícias algum
tempo com Mário de Lacerda, tomou novo impulso com a inclusão de Mendes Ribeiro
(Jorge Alberto). Rejeitado pelo rádio teatro, o encaminhamos para este setor,
que estava acéfalo, e o resultado foi este que presenciamos; de um jornalista
de projeção nacional e internacional, projetando-se na política com grande
força eleitoral e de credibilidade.
Para nós todo este êxito foi
motivo de orgulho e satisfação, por ter sido por sua querida e saudosa mãe, dona Alice Ribeiro, minha cliente
dedicada e amiga. Num de seus
atendimentos profissionais solicitou com muita convicção que incluísse o seu
rapaz(filho) em nossa programação, por ser este seu desejo. Bendita solicitação
e atendimento!
Os programas musicais eram
acompanhados pela orquestra Ernani Marino, um dominando o pistão no saxofone,
dois gentlemen no trato. Esta
orquestra permitiu grandes movimentações artísticas como a inauguração das novas instalações que uma dezena de
artistas de maior renome nacional: Orlando Silva , Francisco Alves , Emilinha
Borba , Marlene , Dircinha Batista , Quatro
Ases e um Coringa , Edu da Gaita , etc.
![]() |
| Registro fotográfico no livro a Música que Embalou o Rádio/2003 |
A festa de encerramento da programação inicial foi feita no Auditório Araujo Viana (localizado aonde está a assembléia) e tal foi seu sucesso em presença de povo e agrado geral que a prorrogamos, contando com a pronta colaboração das autoridades municipais, fornecendo condução (bondes) por mais duas horas , além do horário normal.
Os programas regionais estavam
sob o comando do saudoso Lauro Rodrigues, coordenando artistas como Luiz
Menezes, Manoel Cardoso, grande repentista e trovador. Locução e animação de
auditório, Rubens Alcântara, Adroaldo Guerra, Rezende, etc.
A parte esportiva foi dado especial realce, irradiando-se sistematicamente todos os jogos importantes, em qualquer parte do mundo em que se realizassem, sendo de interesse popular.
Após muitas conversas intermediadas por Harry Kley e Vergara Marques, conseguiu-se autorização do Jóquei Clube para suas corridas serem irradiadas, até então tarefa impossível. Provamos ser motivo de interesse mútuo pela divulgação e conseqüentemente mais volumes de apostas. Deu certo, até hoje esse serviço funciona em várias emissoras. Foi um dos nossos pontos altos com Vegara conduzido uma equipe com locutores especializados como Hoffmeister, Macedo, vários auxiliares de informação e equipe técnica especializada, possibilitando um entrosamento perfeito com os estúdios.
Macedo terminou se afastando para fundar junto com Petrônio e Mafuz a MPM uma das principais agências de publicidade de nosso território nacional.
Supervisionava toda programação
artística Cândido Norberto, mantinha no
horário noturno um comentário
diário “pensando em voz alta” com
grande sintonia. No dia subseqüente, os
comentários de rua sempre se referiam ao que havia sido dito.Tal popularidade e
a repetição constante de seu nome nas
chamadas de programação ensejaram a sua eleição para deputar por um partido PSB
, de pouco eleitorado , sendo possível sua diplomação após eleição suplementar
, pois nem votos para o partido conseguiu.
![]() |
| Registro do livro A Música que embalou o Rádio |




Comentários
Postar um comentário